sexta-feira, novembro 19, 2010

Baixa

Entre mim e a humanidade
Existe uma Humanidade perdida
Nos braços de cada homem.

Onde as ondas do mar se desfazem
Com o desencanto de existir
Apenas… humanidade como quem
Sussurra abismo: estrangeiro mas familiar,
Povoado de baloiços sem cordas.
Entre mim e a humanidade
Existe um precipício de sonhos
Adiados para horas mais certas.
E em mim, nos dias sem trevas, as florestas cantam
Histórias de encantar sem fantasmas
Pendurados nos candeeiros
De todas as esquinas sem luz.
Entre mim e a humanidade existem
Pessoas infinitas
Que vagueiam descalças pelas ruas
Alcatroadas de vidros. E fazem-no
Como se caminhassem sobre papoilas vermelhas…
Deambulam perdidas e visitam humanidades
Intercalares quando fecham os olhos
Numa almofada de rendas velhas.
Entre mim e esta humanidade
Há um fosso aberto no chão
Sem pontes para um outro lado.
E nesse fosso habita a Humanidade
Que nos separa; num buraco de terra
Húmida que é, para essa Humanidade,
Um salão de baile antigo.
Nesse baile dançam as ilusões
De quem é feliz de verdade:
Sem se perguntar porquê.
Os pés calçados deslizam facilmente
Pelo chão de veludo azul e estrelas,
As mãos nas cinturas e nos ombros
Rectos; e os vestidos de cetim
Voam ainda que não haja vento,
E os cabelos arrumados flutuam,
Ainda que não tenham asas.
Uma Humanidade perdida,
Impossível de encontrar,
Onde casas brancas se erguem
Sobre precipícios, e onde os deuses
Se sentam para chorar na mesma
Mesa, exactamente na mesma mesa,
Dos restantes transeuntes. E rezam juntos,
Ninguém sabe a quem…
Choram lágrimas invisíveis
Que guardam em gavetas para quando
A água faltar
(Ou para quando faltar a coragem
Para lembrar os fins de tarde
Em que o sol não se pôs,
Porque não havia um paraíso
De anjos brancos de luz que
Embalassem a ideia do porque
deus assim quis)

Procuro dentro da minha solidão
Um caminho de volta
A um lugar da paz de existir,
Onde o tormento de pensar
É só a espuma das ondas,
Que se desfaz antes do sono
E da esperança de ver o sol
Volver, cada manhã, ao horizonte aberto.
Um lugar que é, afinal de contas,
Lugar nenhum.
Que imagino deitada na cama até me doer o corpo,
Onde há comboios que partem
A todos os minutos para todos
Os lugares, sem apitos em tonalidades
Menores. Lugares de pessoas
De olhos grandes e brilhantes,
Que não acordam e procuram
Com os dedos pálidos e trémulos
O bater do coração nos pulsos
Já gastos pelo ritual.
Onde as crianças aprendem piano,
Coordenando as mãos ao
Som imaginado dos Minuetos
De Bach… Sentadas de cabelo
Alinhado e sem marcas de varicela
Naqueles bancos estofados
A vermelho escuro, numa sala
Cheia de partituras amareladas,
Mas sempre novas. Será que
Ainda aprendem francês?
Lembro agora, sentada, as histórias
Desse país. E procuro, desenho mapas
Escurecidos a chá preto, dactilografo
Cada pedaço desta solidão velha
Em busca desse lugar, desse país,
Dessa humanidade em quem toco
Enquanto desço a baixa, e no entanto
Tão longínqua que me pergunto, por vezes,
Se será só mais uma história de encantar.
Procuro incessantemente, estará
O caminho fora da minha solidão reclusa
De si? Procuro,
Mas nasci de olhos fechados, sem um
Único sonho ou bater de asas
Em mim.
Lá fora o frio batia à janela
Intermitente,
E quando a desabotoei fui por essa noite
Escura, sem saber porquê.
Quando abri pela primeira vez os olhos
Eu já tinha ido, seguraram-me
Contra o peito, mas no meu
Batia já um coração sem gente.

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