domingo, novembro 28, 2010

Cá dentro

Cá dentro uivam os chacais em ferida,
O Outono no jardim faz
Cair as ilusões das árvores
Como folhas amarelas.
Poderia ser algo bonito,
Como o Outono ou uma sonata
Em dó menor, mas é só a vida.
E sabemos que estamos aqui
Porque assistimos do alto de uma janela
A este filme triste.
Ver finalmente a verdade, sem ilusões
Entre os olhos feridos e a realidade.
Cá dentro uivam os lobos,
Como pode haver tanto medo?
E estas ilusões caídas no chão,
Que as pessoas pisam sem saberem…
Terei eu pisado, no tempo em que ainda
Ia ao jardim, as ilusões de alguém?
Brincam as crianças com as folhas,
Que o jardineiro afugenta como moscas.
Queria salvá-las, talvez salvar-me,
Dizer-lhes que têm de ter cuidado com os lobos,
Os chacais, ou os jardineiros. Mas avisá-las seria já
Condená-las e fico a vê-las cair na esperança
De nunca as encontrar numa janela como esta.
Choro quando percebo que a única
Coisa que queria realmente salvar
(E aí talvez sim, pudesse salvar o mundo)
Eram as folhas. Mas estão mortas, no chão,
Sem árvore que as faça ter uma história.
Sem um sonho não há ilusões que sirvam,
Por isso podem levar-me as folhas,
Fiquem os lobos.
E fecho a janela, fecho sempre a janela,
Que sem ilusões não se pode olhar as crianças
E ter paz.

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