sexta-feira, novembro 19, 2010

Condicional

Sento-me no escuro do cinema de mim,
Uma sala vazia num país estrangeiro
Com uma tela ao fundo.
“Não cobramos para assistir a sonhos falhados”,
Ah, se ao menos eu ainda tivesse os sonhos…
E deito-me no chão de mim,
Pode ser calçada ou areia molhada,
Tanto me faz. Pergunto-me se serão
Um cheiro, ou palavras, ou pessoas, ou mar.
Pergunto-me se haverá algo
Além de uma eterna comédia, sarcasmo
Talvez, de ir visitar os meus sonhos ao escuro
De um cinema dentro de mim.
Mas já nem os sonhos são meus.
Alguém sussurra que naquela tela
Poderia estar o Universo,
E eu tremo, embalada na eterna conjugação
Verbal que são sempre os meus dias de
Sempre corpos, só corpos,
Passageiros do finito.
Quero querer saltar daquela janela,
Ou sair de casa no frio de Novembro
Para dar a mão a alguém.
Fazemos parte desta marcha para a apatia,
E eu queria sair do cinema a chorar.
Queria não olhar sempre para os meus dias
Como uma mão cheia de frases desconexas
Contadas na terceira pessoa.
Vejo os meus sonhos correrem fora de mim,
Ganharem vida para lá de mim,
E o movimento repetido deste baloiço
(Com a tela ao fundo no escuro de mim)
Faz-me poder jurar que não estou viva,
Que morri numa esquina sem nome
Há muitos anos já. Seria mais fácil.
Mas falta sempre acabar de fumar um cigarro,
Ou cinco minutos para o microondas desligar,
Ou quinze dias para te ver.
E neste eterno adiar,
Neste caminhar de ter só uma corda por baixo dos pés
Está guardado algo que ainda tenho,
Ainda que não lhe saiba o nome.
E talvez daqui a uma dúzia de anos esteja
Num quarto de hotel a olhar para isto
Que um dia vou perder. Que agora parece nada,
Mas que me sustenta por eu não saber o que é.
E talvez escreva um poema.

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