domingo, novembro 21, 2010

Por isso, sentamo-nos nesta ponte. O mundo levou-nos o brilho (ou será que nos esquecemos dele no bolso de um casaco que ficou na lavandaria?), e os nossos sapatos estão para sempre rotos. Houve um tempo em que vivemos nesta ponte, há muito tempo já, mendigos dos nossos sonhos. E se sempre adormecemos voltados para uma margem diferente deste rio, a ponte era a mesma. Havia, na solidão da madeira nas costas doridas pelas noites ao frio, uma espécie de conforto. Sei que o experimentaste também.
Sentemo-nos nesta ponte, falhámos os dois. Tu quiseste aceitar o mundo, eu quis aceitar as pessoas. Só o facto de o termos querido fazer é, por si, um precipício. Não uma falha no meio do caminho, como uma pedra da qual nos desviamos para não cair, mas uma canção de embalar. Flutuámos no correr deste rio, atordoados e salvos pelo mesmo desencanto. Às vezes, quando vejo os teus olhos, há ainda um abismo lá dentro que me apetece percorrer como os corredores de um museu de arte antiga. Ou talvez seja só eu a projectar um sentido nesta marcha de abandono. Ou de circunstâncias, ou de vida. Talvez eu te fizesse mal, afinal de contas.
Sentemo-nos, fala-me da tua paz sem monstros. Podemos até cair na melopeia de não falar, é só uma noite. E assim vamos achar que nos percebemos, talvez eu te faça mal. A única coisa que queria saber é se, por vezes, ainda queres cair. Porque também cheguei a esse paraíso, essa paz. Mas não me chega. E sei que estás a pensar que não me chega porque nunca cheguei lá. Chegarei um dia? Quero lá chegar? Há qualquer coisa nesta paz que me inquieta, que me é eternamente estranha e desconfortável. Como uma roupa bonita e colorida que visto para enganar os outros e a mim, mas que é cosida com alfinetes que me picam por dentro. Chego a casa ao fim do dia e quero despi-la. Talvez seja só mais uma máscara. O que são agora as tuas máscaras?
Passaram-se anos desde que experimentei esta paz. Dei-lhe uma casa arrumada e com luz. Mas depois de a adormecer numa cama quente de penas, eu ia deitar-me numa cave húmida com os ratos. E voltava de manhã, antes dela acordar. No fundo, queria só dizer-te que não estou bem, mas que este não estar bem me é confortável. E não aguento mais esta comichão de sorrisos, estradas sem sentido, corpos atrás de corpos para ter por uma noite algo como um prazer que se evapora sempre de manhã. Talvez não esteja pronta para deixar ir os meus sonhos, e queria dizer-te que vou voltar à nossa, a esta ponte. Ainda que te vá sorrir e dizer que está tudo bem, que é simples e bonito acordar, que estou curada. Ou talvez nem te volte a encontrar. Por isso, deixa-me saber onde andas. Mesmo que me vás sorrir de volta, responder que está tudo bem, que descobriste até que nunca estiveste doente. Oiço o rio chamar lá em baixo, e talvez precise de ouvir alguém que me chame do outro lado de uma mesma ponte.

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