sábado, julho 16, 2011

Os outros

Debruço-me preguiçosa e demoradamente sobre a janela de nós, como uma qualquer mulher que chega a casa cansada e acende a telenovela barata, sem história. Deixa os sapatos perdidos à entrada de casa, sem amargura. No quarto, o filho joga dados como quem desafia o destino, o acaso, deus, a sorte. Silenciosamente. (Quantas noites fico eu no quarto de nós, na ideia de nós, a jogar os dados sobre um tabuleiro sem fim?) Vejo-nos correr ao longe, longe do mundo, sempre longe de nós. E não consigo evitar sorrir, até rir descontroladamente das armadilhas que montamos um ao outro, talvez a nós mesmos. Em casa, a mulher ri também, descortino-lhe uma ponta de desespero enquanto contempla o lava-loiça limpo e arrumado que em tempos o marido entupia com copos sujos, sempre por lavar. (Estará agora a entupir as ilusões das longas pernas da secretária?) Sem amargura. Na telenovela, a vida corre aos soluços. As personagens atropelam-se, representam mal aquilo que seria a vida, noutra casa os intelectuais vêem antes a dois, porque a vida dos outros não interessa. Além disso, os actores são maus. Mas nas outras casas, as pessoas são sempre outras… Nas outras casas é sempre fácil ser feliz.

A mulher desiste de fazer o jantar, tal como eu desisto de nós, todas as noites. Somos o jantar de microondas dos adolescentes que ainda não aprenderam a magia do que não é artificial, descartável, adiável. Sem amargura.

1 comentário:

A TPD disse...

Novo ao teu blog, adorei este 1ro que li.